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IBGP Responde – Transformação Digital

IBGP Responde – Transformação Digital

Quais são os principais impulsionadores da transformação digital no setor público contemporâneo?

Os impulsionadores da transformação digital no setor público são multifacetados, combinando pressões sociais, avanços tecnológicos e imperativos de gestão. O principal impulsionador é a mudança nas expectativas do cidadão. Em uma sociedade hiperconectada, os indivíduos estão acostumados com a agilidade, simplicidade e personalização dos serviços oferecidos por empresas de tecnologia como Uber, iFood e Airbnb. Essa experiência de consumo digital de alta qualidade eleva o padrão esperado para todas as interações, incluindo aquelas com o governo. O cidadão moderno não aceita mais a burocracia, as filas e a lentidão como inevitáveis, exigindo do Estado um nível de serviço comparável ao do setor privado. Um segundo impulsionador crucial é a pressão fiscal. Governos em todos os níveis enfrentam restrições orçamentárias crescentes e a necessidade de “fazer mais com menos”. A transformação digital surge como uma estratégia vital para aumentar a eficiência operacional, automatizando tarefas repetitivas, otimizando a alocação de pessoal e reduzindo custos com infraestrutura física e material de escritório. A economia gerada pela digitalização pode ser reinvestida em áreas prioritárias, como saúde, educação e segurança. Por fim, o próprio avanço tecnológico atua como um catalisador, oferecendo novas ferramentas (como Inteligência Artificial, Cloud Computing e Big Data) que abrem possibilidades antes inimagináveis para a gestão e a prestação de serviços públicos, permitindo a criação de políticas mais proativas e baseadas em evidências.

Como o fenômeno da exclusão digital impacta a eficácia dos serviços públicos digitais e quais estratégias podem mitigá-lo?

A exclusão digital é o principal fator que limita a eficácia e o alcance universal dos serviços públicos digitais. Ela se manifesta em três dimensões principais. A primeira é a barreira de acesso, que envolve a falta de dispositivos (smartphones, computadores) e, mais comumente, a ausência de uma conexão de internet estável e de qualidade, um problema crônico em áreas rurais e periféricas do Brasil. A segunda dimensão é a falta de letramento digital, que é a capacidade de usar as ferramentas tecnológicas de forma proficiente e segura. Uma parcela significativa da população, especialmente os mais idosos, pode ter acesso ao dispositivo e à internet, mas não possui as habilidades necessárias para navegar em aplicativos, preencher formulários online ou compreender os protocolos de segurança. A terceira dimensão é a desconfiança, alimentada por notícias sobre fraudes, golpes e vazamento de dados, que leva muitos cidadãos a preferirem o canal presencial por o considerarem mais seguro e confiável. O impacto direto dessa exclusão é a criação de uma “cidadania de duas velocidades”: um grupo de cidadãos digitalmente incluídos que desfruta de serviços ágeis e eficientes, e outro grupo, frequentemente o mais vulnerável, que fica para trás, enfrentando barreiras ainda maiores para acessar seus direitos. Para mitigar esse problema, é essencial uma abordagem multifacetada: manter e qualificar canais de atendimento presencial como retaguarda; investir em programas nacionais de capacitação e letramento digital; e, crucialmente, projetar os serviços digitais com foco obsessivo na simplicidade, acessibilidade e usabilidade, para que exijam o mínimo de esforço e conhecimento prévio do usuário.

Qual é o papel estratégico do “letramento digital” na política de transformação digital de um governo?

O letramento digital transcende a simples habilidade de usar um computador; ele representa a capacidade crítica de um indivíduo para acessar, avaliar, gerenciar, integrar, criar e comunicar informações por meio de tecnologias digitais. Em uma política de transformação digital governamental, o letramento digital não pode ser tratado como uma questão secundária ou de responsabilidade exclusiva do sistema educacional, mas sim como um pilar estratégico central. Sua importância reside no fato de que a mais sofisticada e eficiente plataforma de serviços digitais é inútil se o cidadão não souber como usá-la ou não confiar nela. Um baixo nível de letramento digital na população resulta diretamente em baixas taxas de adoção dos serviços online, perpetuando a sobrecarga dos canais presenciais e anulando grande parte do retorno sobre o investimento em tecnologia. Além disso, cidadãos com baixo letramento digital são mais vulneráveis a golpes, phishing e desinformação, o que corrói a confiança no ecossistema digital como um todo, incluindo as plataformas governamentais. Portanto, uma estratégia de transformação digital completa deve incluir programas robustos e contínuos de capacitação, direcionados a diferentes segmentos da população, especialmente os mais vulneráveis. Isso pode envolver parcerias com escolas, bibliotecas, centros comunitários e o terceiro setor para oferecer cursos e workshops gratuitos, além da criação de tutoriais e materiais de apoio em linguagem simples e acessível dentro das próprias plataformas de governo. O letramento digital é a ponte que conecta a oferta de tecnologia à sua efetiva apropriação pela sociedade.

Por que uma parcela significativa dos cidadãos ainda prefere canais presenciais e como o Estado deve abordar essa preferência?

A persistente preferência de uma grande parcela da população por canais de atendimento presenciais, mesmo com a disponibilidade de alternativas digitais, é um fenômeno complexo que não pode ser atribuído apenas à resistência à mudança. Diversos fatores estruturais e culturais explicam essa realidade. Primeiramente, a já mencionada exclusão e falta de letramento digital criam barreiras práticas que tornam o acesso presencial a única opção viável para muitos. Em segundo lugar, existe uma profunda desconfiança cultural em relação às transações digitais, especialmente quando envolvem dados sensíveis e direitos fundamentais. A percepção de que um documento físico carimbado ou um protocolo em papel é “mais seguro” do que uma confirmação digital ainda é muito forte. Em terceiro lugar, para muitas pessoas, especialmente idosos ou indivíduos em situações de grande estresse ou vulnerabilidade (como ao solicitar um benefício por invalidez), a interação humana com um servidor público é fundamental. O acolhimento, a empatia e a capacidade de tirar dúvidas em tempo real são aspectos que a tecnologia ainda não consegue replicar plenamente. O Estado deve abordar essa preferência não tentando eliminá-la, mas integrando-a a uma estratégia omnicanal. Isso significa que, em vez de forçar uma migração para o digital, o objetivo deve ser otimizar todos os canais. A digitalização de parte da demanda libera os canais presenciais para oferecer um atendimento de maior qualidade, com menos filas e mais tempo para os casos complexos, tornando a experiência presencial melhor para quem realmente precisa ou a prefere.

Quais são os componentes essenciais de um framework de governança digital robusta para entidades do setor público?

Um framework de governança digital robusta para o setor público deve ir além da gestão de TI e abranger estratégia, processos, pessoas e tecnologia de forma integrada. Seus componentes essenciais são:
1) Liderança e Direcionamento Estratégico: Deve haver um comitê ou conselho de transformação digital no mais alto nível da organização, com poder decisório, responsável por definir a visão, o propósito e os objetivos estratégicos da digitalização, garantindo o alinhamento com o planejamento geral da instituição.
2) Estrutura Organizacional e Papéis: É fundamental definir papéis e responsabilidades claras, muitas vezes com a criação de uma unidade central como um Escritório de Transformação Digital (ETD) para orquestrar as iniciativas, fornecer metodologias e apoiar as áreas de negócio.
3) Gestão de Portfólio de Projetos: A governança deve estabelecer critérios claros para a priorização de projetos de digitalização, baseados no impacto para o cidadão e no alinhamento estratégico, e não apenas em demandas departamentais isoladas.
4) Arquitetura Corporativa e Padrões: Definição de padrões tecnológicos, de dados e de segurança que garantam a interoperabilidade entre os sistemas, evitem a criação de novos silos e assegurem a escalabilidade das soluções.
5) Monitoramento e Gestão de Desempenho: Estabelecimento de um sistema de métricas e indicadores-chave de desempenho (KPIs), focados em resultados (ex: satisfação do cidadão, tempo de serviço) e não apenas em entregas (ex: sistema implantado). Isso permite o acompanhamento contínuo e o ajuste de rota.
6) Gestão da Mudança e Comunicação: Um plano estruturado para comunicar os benefícios da transformação, capacitar os servidores e engajar todas as partes interessadas, minimizando resistências e acelerando a adoção das novas ferramentas e processos.

Qual o conceito de “design centrado no cidadão” (citizen-centric design) e sua aplicação prática na reforma de serviços públicos?

O “design centrado no cidadão” é uma abordagem para o desenvolvimento de serviços públicos que coloca as necessidades, experiências e perspectivas do usuário final no centro de todo o processo de design e tomada de decisão. Ele inverte a lógica tradicional da administração pública, que historicamente projeta serviços de “dentro para fora”, baseados em suas próprias estruturas e processos internos. Na prática, a aplicação desse conceito na reforma de serviços públicos se desdobra em várias etapas. Começa com uma fase de pesquisa e imersão, onde equipes multidisciplinares utilizam técnicas etnográficas, como entrevistas em profundidade e observação participante, para entender o contexto real do cidadão. O objetivo é mapear a “jornada do cidadão” (citizen journey) ponta a ponta, identificando todas as suas dores, frustrações e necessidades em cada ponto de contato com o serviço. Com base nesses insights, são criadas personas, que são arquétipos detalhados de diferentes tipos de usuários, para guiar as decisões de design. A fase seguinte é a de ideação e co-criação, onde servidores e cidadãos colaboram em workshops para gerar ideias e desenhar soluções. A partir daí, são construídos protótipos de baixa e alta fidelidade (desde desenhos em papel até interfaces interativas), que são testados exaustivamente com usuários reais. O feedback coletado nesses testes é usado para iterar e refinar a solução antes que qualquer linha de código seja escrita em larga escala. Esse ciclo de “construir, medir, aprender” garante que o serviço final seja intuitivo, útil e atenda às expectativas reais da população, reduzindo o desperdício de recursos em projetos que não têm aderência.

Como líderes do setor público podem efetivamente patrocinar e liderar iniciativas de transformação digital em suas organizações?

A liderança eficaz em iniciativas de transformação digital no setor público exige um conjunto de competências que vai além da gestão tradicional. O primeiro passo para um patrocínio efetivo é a construção e comunicação de uma visão inspiradora e com propósito. O líder deve ser capaz de articular claramente o “porquê” da transformação, conectando-a a um benefício tangível para a sociedade. Essa visão serve como uma estrela-guia que alinha e motiva as equipes. Em segundo lugar, o líder deve garantir o alinhamento e o compromisso da alta gestão, assegurando que a transformação digital não seja vista como um projeto isolado da área de TI, mas como uma prioridade estratégica de toda a organização. Isso envolve alocar recursos (financeiros e humanos) de forma consistente e defender a agenda de transformação em fóruns decisórios. Terceiro, é crucial que o líder atue como um “removedor de barreiras”, usando sua autoridade para quebrar silos organizacionais, simplificar processos burocráticos internos e promover a colaboração entre diferentes áreas. Quarto, a liderança deve fomentar uma cultura de segurança psicológica e experimentação, onde o erro é visto como parte do processo de aprendizagem. Servidores precisam se sentir seguros para testar novas abordagens sem o medo de punição em caso de falha. Finalmente, o líder deve liderar pelo exemplo (walk the talk), demonstrando em suas próprias práticas diárias um comportamento digital, colaborativo e aberto à mudança, utilizando as novas ferramentas e participando ativamente dos rituais de governança ágil.

Quais são os principais marcos legais e regulatórios que orientam o governo digital no Brasil?

O ecossistema de governo digital no Brasil é orientado por um conjunto de marcos legais e regulatórios que evoluíram para dar mais consistência e obrigatoriedade à transformação digital. O principal marco é a Lei nº 14.129/2021, conhecida como a Lei de Governo Digital. Esta lei estabelece regras e instrumentos para a prestação digital de serviços públicos, consolidando princípios como a presunção de boa-fé do usuário, o acesso unificado em plataforma única (como o Gov.br) e o princípio do “uma só vez” (once-only), que veda a solicitação de documentos que já estejam em posse do poder público. Abaixo da lei, temos as estratégias que a desdobram em objetivos e iniciativas. A Estratégia Nacional de Governo Digital, por exemplo, busca coordenar as ações entre União, estados e municípios. Em âmbito federal, a Estratégia Federal de Governo Digital define as prioridades e metas específicas para os órgãos federais. Outro marco legal de extrema importância é a Lei nº 13.709/2018, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), que se aplica integralmente ao setor público e estabelece regras rígidas para o tratamento de dados dos cidadãos, exigindo finalidade clara, consentimento (quando aplicável) e a implementação de medidas robustas de segurança. Por fim, a Lei nº 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), embora anterior, fundamenta o princípio da transparência, que é um pilar essencial de qualquer estratégia de governo digital.

Quais os benefícios econômicos quantificáveis da digitalização de serviços para o cidadão e para o Estado?

Os benefícios econômicos da digitalização de serviços são vastos e podem ser quantificados tanto sob a ótrica do cidadão quanto do Estado. Para o cidadão, o benefício mais direto é a economia de custos de transação. Isso inclui a economia com transporte para se deslocar até uma repartição pública, custos de impressão e cópia de documentos, e, crucialmente, o custo de oportunidade do tempo perdido. Um trabalhador autônomo, por exemplo, que deixa de trabalhar por meio período para resolver uma pendência presencial, tem uma perda de renda direta. Estudos indicam que a economia por trâmite digital pode superar os R$ 50,00, um valor significativo que, ao ser liberado no orçamento familiar, pode ser direcionado para consumo ou poupança, estimulando a economia. Para o Estado, os benefícios são igualmente expressivos. A redução de custos operacionais é o mais evidente: diminui-se a necessidade de grandes estruturas físicas de atendimento, os gastos com papel, impressão, armazenamento e pessoal alocado em tarefas repetitivas. Essa eficiência permite que o Estado opere com um custo menor por serviço prestado. Além disso, a digitalização aumenta a eficiência da arrecadação e reduz a fraude e a evasão fiscal, pois sistemas integrados permitem o cruzamento de dados e a identificação de inconsistências de forma automatizada. A longo prazo, um ambiente de negócios com menos burocracia digital atrai mais investimentos, formaliza empresas e amplia a base tributária, gerando um ciclo virtuoso de desenvolvimento econômico.

O que é “governança ágil” e como ela se diferencia dos modelos tradicionais de governança na administração pública?

A “governança ágil” é uma abordagem de gestão e supervisão que adapta os princípios e práticas dos métodos ágeis (originalmente do desenvolvimento de software) para o contexto da governança corporativa e pública. Ela se diferencia fundamentalmente dos modelos tradicionais em vários aspectos. Enquanto a governança tradicional é caracterizada por planejamentos de longo prazo, estruturas hierárquicas rígidas, processos decisórios centralizados e um foco no controle de processos e no cumprimento de cronogramas, a governança ágil opera com ciclos curtos de planejamento e execução (sprints), equipes multidisciplinares e autônomas, e um foco obsessivo na entrega de valor ao usuário final e na medição de resultados. A governança tradicional busca prever e controlar o futuro; a governança ágil reconhece a incerteza e busca se adaptar rapidamente às mudanças. Na prática, isso significa que um comitê de governança ágil se reuniria com mais frequência (ex: mensalmente) para revisar resultados concretos e tomar decisões rápidas, em vez de se reunir trimestralmente para analisar relatórios de status. As métricas de sucesso mudam de “o projeto está dentro do orçamento e do prazo?” para “o produto que entregamos está resolvendo o problema do cidadão e alcançando os objetivos estratégicos?”. Essa abordagem permite que a organização aprenda e ajuste seu curso continuamente, minimizando o risco de investir por anos em um projeto que, ao final, se mostra obsoleto ou inadequado às necessidades reais.

Quais são as principais considerações éticas ao implementar soluções de Inteligência Artificial (IA) em serviços públicos?

A implementação de Inteligência Artificial no setor público levanta profundas considerações éticas que precisam ser endereçadas de forma proativa. A principal delas é o risco de viés e discriminação. Modelos de IA são treinados com dados históricos e, se esses dados refletem preconceitos sociais existentes (raciais, de gênero, socioeconômicos), o algoritmo não apenas os replicará, mas poderá amplificá-los em escala, resultando em discriminação automatizada. A segunda consideração é a transparência e a explicabilidade (XAI). Muitas decisões de IA, especialmente as baseadas em deep learning, operam como “caixas-pretas”. É eticamente inaceitável que um cidadão tenha um direito negado por um algoritmo sem que o Estado seja capaz de explicar o porquê daquela decisão. É fundamental garantir que os modelos sejam auditáveis e que suas decisões possam ser compreendidas por um ser humano. A terceira questão é a responsabilidade (accountability). Quem é o responsável quando um algoritmo comete um erro com consequências graves? O desenvolvedor, o gestor público que o implementou, o órgão? É preciso definir cadeias claras de responsabilidade. Quarto, a privacidade e a vigilância. O uso de IA para cruzar massivos volumes de dados de cidadãos, embora útil para a formulação de políticas, abre portas para um nível de vigilância estatal sem precedentes, exigindo salvaguardas extremamente robustas para proteger os direitos individuais. Por fim, há o risco da desumanização do serviço público, onde a busca pela eficiência leva à substituição total da interação humana, mesmo em situações que exigem empatia e acolhimento.

De que forma a “co-criação” com cidadãos pode aprimorar a qualidade e a taxa de adoção de serviços digitais?

A co-criação é um processo colaborativo que envolve ativamente os cidadãos e outras partes interessadas (como servidores da linha de frente) no design e desenvolvimento de serviços públicos. Ela aprimora a qualidade e a adoção dos serviços digitais de várias maneiras fundamentais. Primeiramente, ela garante que o serviço seja relevante e centrado no problema real. Ao trazer o usuário para o centro do processo, os gestores públicos ganham uma compreensão profunda de suas necessidades, dores e contexto, evitando o risco de desenvolver soluções tecnologicamente elegantes, mas que não resolvem nenhum problema prático. Em segundo lugar, a co-criação melhora drasticamente a usabilidade e a experiência do usuário. Cidadãos que participam de testes de protótipos identificam rapidamente fluxos confusos, terminologias técnicas e funcionalidades desnecessárias, permitindo que a equipe de desenvolvimento refine a interface até que ela se torne intuitiva e fácil de usar. Isso reduz a curva de aprendizado e diminui as barreiras para a adoção, especialmente para usuários com menor letramento digital. Terceiro, o processo de co-criação gera um forte senso de apropriação e confiança. Um cidadão que participa da construção de um serviço se sente parte da solução e se torna um defensor natural da plataforma, ajudando a promovê-la em sua comunidade. Essa validação social é muito mais poderosa do que qualquer campanha de marketing governamental. Por fim, a co-criação pode revelar soluções inovadoras que a equipe técnica, isolada em seu escritório, talvez nunca considerasse, aproveitando a “inteligência coletiva” da sociedade.

Qual a importância estratégica da governança de dados e do compartilhamento de informações em um ecossistema de governo digital?

A governança de dados e o compartilhamento de informações são a espinha dorsal de qualquer ecossistema de governo digital maduro e eficiente. A importância estratégica reside em três áreas principais. A primeira é a habilitação de serviços centrados no cidadão e proativos. O princípio do “uma só vez” (once-only), que determina que o governo não pode pedir ao cidadão uma informação que já possui, só é viável se houver uma plataforma de interoperabilidade que permita o compartilhamento seguro e padronizado de dados entre diferentes órgãos. Sem isso, cada ministério ou secretaria continua sendo um silo de informação, forçando o cidadão a repetir a mesma jornada burocrática várias vezes. A segunda área é a melhora radical na formulação de políticas públicas e na tomada de decisão. A capacidade de cruzar dados de diferentes fontes (saúde, educação, assistência social, trabalho) permite que os gestores tenham uma visão holística dos problemas, identifiquem correlações, avaliem o impacto real das políticas e tomem decisões baseadas em evidências, e não em intuição. A terceira área é o aumento da eficiência e o combate à fraude. Sistemas que compartilham dados podem, por exemplo, identificar automaticamente o pagamento indevido de um benefício social a alguém que já veio a óbito (cruzando com a base de dados de registros civis) ou que possui renda incompatível (cruzando com dados da receita federal), gerando uma economia massiva de recursos públicos. Portanto, a governança de dados não é uma questão técnica de TI, mas um componente estratégico que potencializa a eficiência, a inteligência e a capacidade de resposta do Estado.

Quais são as principais barreiras à interoperabilidade entre sistemas governamentais e como podem ser superadas?

A interoperabilidade, que é a capacidade de diferentes sistemas e organizações trocarem e utilizarem informações de forma eficaz, é um dos maiores desafios técnicos e organizacionais do governo digital. As barreiras são de múltiplas naturezas. A barreira técnica é a mais óbvia, decorrente da existência de inúmeros sistemas legados, desenvolvidos em diferentes tecnologias, com modelos de dados distintos e sem APIs (Interfaces de Programação de Aplicações) padronizadas. A barreira semântica ocorre quando diferentes órgãos utilizam termos e classificações diferentes para a mesma informação (ex: o conceito de “empresa” pode variar entre a Receita Federal e a Junta Comercial), dificultando a interpretação correta dos dados trocados. A barreira organizacional e cultural é frequentemente a mais difícil de superar. Ela se manifesta na visão de que “os dados são do meu órgão”, no medo da perda de poder ou relevância, na falta de confiança entre as instituições e na ausência de incentivos para a colaboração. Por fim, a barreira legal e de governança surge quando não há clareza sobre as permissões de acesso, as responsabilidades pela qualidade dos dados e os padrões de segurança a serem seguidos. A superação dessas barreiras exige uma abordagem coordenada: a criação de uma plataforma central de interoperabilidade (como o Conecta Gov, no caso brasileiro); o estabelecimento de padrões obrigatórios de tecnologia e semântica; a definição de uma governança clara de dados com papéis e responsabilidades; e, acima de tudo, uma forte liderança política que imponha a colaboração como um princípio inegociável da administração pública.

Como os “laboratórios de inovação” podem acelerar a transformação digital no setor público de maneira controlada e eficaz?

Os “laboratórios de inovação” (iLabs) funcionam como espaços seguros e estruturados para a experimentação dentro da máquina pública, acelerando a transformação digital de forma controlada e eficaz. Seu principal valor é criar uma “zona de exceção” que se distancia da rigidez e da aversão ao risco típicas da burocracia, permitindo que novas ideias sejam testadas rapidamente e com baixo custo. A aceleração ocorre por vários mecanismos. Primeiramente, os laboratórios utilizam metodologias ágeis e de design thinking, que encurtam drasticamente o ciclo de desenvolvimento, passando da identificação de um problema para um protótipo testável em semanas, em vez de meses ou anos. Em segundo lugar, eles promovem a colaboração multidisciplinar, reunindo em um mesmo espaço físico ou virtual servidores de diferentes áreas, designers, especialistas em tecnologia e, crucialmente, cidadãos. Essa diversidade de perspectivas catalisa a criatividade e a geração de soluções mais completas. Terceiro, os laboratórios operam sob o mantra de “errar rápido, errar barato”. Ao focar em experimentos de pequena escala, eles permitem que as más ideias sejam descartadas rapidamente, antes que consumam recursos significativos. Isso representa uma inversão do modelo tradicional, onde se investe massivamente em um projeto por anos para só então descobrir que ele não funciona. A natureza controlada do laboratório garante que essas falhas não tenham impacto no serviço real prestado ao cidadão. Por fim, os laboratórios funcionam como um motor de mudança cultural, capacitando servidores em novas metodologias e demonstrando na prática que é possível inovar dentro do governo. As soluções bem-sucedidas que emergem do laboratório podem então ser escaladas para toda a organização com um grau de risco muito menor, pois já foram validadas na prática.

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